SETE DE OUTUBRO

setembro 23, 2018

 

Escolhi este 20 de setembro, há poucos dias do início da Primavera (que não seja a derradeira) e a 18 dias da abertura das urnas, no primeiro turno, 07/10/18, para compartilhar com você o que tenho lido na imprensa escrita.

 

Civilização ou barbárie?

Paulo Nogueira Batista Jr.

Nós, economistas, somos extraordinários profetas – mas do passado, só do passado. E temos dificuldades até com o passado, pois no Brasil também o passado é muito difícil de prever.

Há exceções, porém. Em artigo publicado nesta coluna em junho, há três meses, arrisquei algumas previsões eleitorais. Escrevi o seguinte: “Nenhum candidato remotamente associado a Temer e ao golpe de 2016 tem chances de vencer a eleição de outubro (…) O favoritismo parece ser de candidatos de esquerda/centro-esquerda. Bolsonaro, único candidato competitivo pela direita, pode chegar ao segundo turno, mas dificilmente vencerá a eleição (…) Tudo indica que a candidatura de Lula não será permitida. Um candidato indicado por ele, porém, tende a ser forte. (…) Ciro Gomes também é um candidato forte de oposição, tem vasta experiência, está com discurso afiado e evolui favoravelmente nas pesquisas de intenção de voto” (“O Brasil não quebrou”, 13 de junho de 2018). Talvez parecessem otimistas na época, mas hoje são amplamente compartilhadas. Com Haddad indicado para cabeça de chapa pelo PT, completa-se o rol dos candidatos à Presidência. Ele entra tarde, mas com a força de quem representa Lula. Ciro também vem crescendo. Um dos dois enfrentará Bolsonaro no segundo turno.

Assim é muito provável que o eleitor brasileiro se defronte com uma disjuntiva dramática: civilização ou barbárie? E é por isso que a eleição de outubro está sendo vista por muitos como a mais importante desde a redemocratização.

(Jornal do Brasil – 14-09-18)

 

Estou bem confuso. E você? Não voto mais. Veja lá o que você vai depositar na urna, tá me entendendo?

 

Toffoli acerta ao propor conciliação na posse no STF

“Ao tomar posse quinta-feira na presidência do Supremo, em substituição a Carmem Lúcia, o ministro Dias Toffoli, indicado pelo governo Lula em 2009 para a Corte, assumiu com o oportuno discurso da pacificação de conflitos dentro e fora do Supremo.

Em todos esses anos a Corte tem dado demonstrações positivas de independência e correção, como deve ser o Judiciário na República.

Mas a carga de assuntos criminais intoxicados de política e ideologia que tem mediado só fez crescer depois do mensalão”.

(Jornal O Globo – 15/09/18)

 

 

MERVAL PEREIRA

Haddad e Ciro se distanciam

Com o crescimento da candidatura de Fernando Haddad, do PT, e a manutenção de Ciro Gomes nos mesmos patamares, parece ter encurtado o campo para os demais candidatos que disputam a ida ao segundo turno. O candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, mais uma vez ficou parado, não dando ânimo a quem ainda aguarda uma tendência de alta. Marina Silva confirmou a queda registrada em outras pesquisas e, segundo o Datafolha, está com a metade das intenções de votos com que começou a campanha eleitoral.

O empate técnico na disputa do segundo turno continua, mas com dois grupos já se distinguindo um do outro. Ciro e Haddad estão no limite do empate técnico com Geraldo Alckmin (PSDB), que oscilou de 10% para 9%. No mesmo patamar do tucano está Marina Silva (Rede), que caiu de 11% para 8%.

Mas é preciso muito malabarismo estatístico para não enxergar que Alckmin e Marina estão estagnado, quando não caindo, enquanto Ciro e Haddad estão em ascensão, principalmente o petista.

(Jornal O Globo – 15-09-18)

 

 

DESENVOLVIMENTO HUMANO NÃO AVANÇA NO BRASIL

Desemprego e desigualdade mantêm país atrás da Venezuela no IDH, após ganhos de 2012 e 2014

(Jornal do Brasil -15-09-18)

 

“Com quatro candidatos brigando por um lugar, eles se transformam em maiores rivais entre si, mais até do que em relação ao primeiro colocado, impossibilitado pela nova cirurgia de continuar sua campanha. Na última pesquisa do Ibope, Bolsonaro subiu quatro pontos e alcançou 26% das intenções de voto. No segundo lugar aparecem agrupados Ciro (11%), Marina (9%), Alckmin (9%) e Haddad (8%).

A estratégia que cada um dos quatro vai adotar agora deve ser a do chamado voto útil. Alckmin, por exemplo, que é contra todos “os tons de vermelho”, acha que só ele é capaz de derrotar o PT numa etapa decisiva. Já Ciro Gomes ataca em duas frentes: é o único que pode enfrentar com vantagem Bolsonaro e espalha que “Haddad não é Lula, Haddad é Dilma”. Enquanto isso, Marina Silva, ex-petista, critica o candidato do PT, que, por sua vez, conta com a transferência dos eleitores de Lula. Como se vê, ao eleitor não vai faltar emoção – nem confusão”.

(Zuenir Ventura – O Globo – 15/09/18)

 

 

NOVIDADES

 

Os brasileiros gostam do improviso. Aqui havia um candidato na prisão e outro no hospital. Haddad substituiu Lula, e a campanha, afinal, começou. Porém, Bolsonaro não está em condições físicas de falar em público nem se submeter à pesada agenda de candidato. Luta pela sua vida. A campanha para ele acabou. Nem no segundo turno estará de volta. Este é o novo retrato da situação. Um candidato que representa outro – não tem personalidade própria nem projeto de governo – e um que tem projeto de governo, mas não pode apresentá-lo por restrições de natureza pessoal. Está na unidade de tratamento intensivo de hospital em São Paulo.

Entre esses opostos, a campanha evolui. Não se conhece a capacidade de transferência de votos de Lula para Haddad. Não se conhece a capacidade de ganhar votos de um candidato que está numa cama de hospital. E não se conhece a possibilidade de crescimento dos três que lhes são próximos. Marina Silva anda caindo pelas tabelas. Ciro Gomes tenta a conciliação, mas volta e meia derrapa e dispara um ataque. Geraldo Alckmin, o preferido pelo mercado financeiro, quer partir para cima de seus oponentes. Se conseguir tirar votos de Meirelles e Álvaro Dias subirá significativamente nas pesquisas.

(André Gustavo Stumpf – Jornal do Brasil – 15-09-18)

 

 

HADDAD PÕE O PÉ NA ESTRADA

Fernando Haddad tem pouco mais de um mês para mostrar que não é o “Andrade”. Sua unção aconteceu aos 45 minutos do segundo tempo, quando a vitimização de Lula já tinha rendido tudo o que podia render. É até provável que o PT tenha perdido uma semana de propaganda ao esticar desnecessariamente a corda.

Haddad entra em campo com o patrimônio dos bons tempos de Lula e com a bola de ferro das malfeitorias do petismo. Seus adversários negam que ele tenha presidido um país com emprego, crescimento e olho na redução das desigualdades sociais. Perdem tempo, pois o sujeito que perdeu o emprego se lembra da vida que teve. Já os petistas, inclusive Haddad, embrulham o mensalão e as petrorroubalheiras numa delirante teoria da conspiração. Também perdem tempo, pois o resultado está aí e chama-se Jair Bolsonaro.

(Elio Gaspari – O Globo – 17-09-18)

 

 

‘Tá’ ruim

 

Pesquisa de Ciee e Instituto Locomotiva, de Renato Meirelles, com 41 mil jovens, mostra que 95% dos brasileiros de 16 a 35 anos não sabem se o Brasil sairá da crise. E mais: 61% não acreditam que o próximo presidente resolverá o problema.

(Ancelmo Gois – O Globo – 17-09)

 

 

Candidato tutelado

 

Terminou ontem o ato que todos sabiam como iria acabar. O ex-prefeito Fernando Haddad foi anunciado como candidato do PT à Presidência da República para, se vencer, exercer o poder em nome de Lula e com o Lula.

Só havia pessoas brancas no campo de visão da imagem transmitida pelo PT, quando Haddad relacionou, entre os vários motivos pelos quais Lula estaria sendo impedido, o de ter permitido a ascensão dos negros. “Será que é porque eles tiveram que se sentar com um negro no avião?” perguntou. Outro motivo teria sido a reação da elite ao fato de o partido ter tirado o Brasil do mapa da fome.

Demagogias assim são comuns em período eleitoral. Normalmente, elas se chocam com os fatos. A Pnad de 2015 mostrou que, no último ano que o PT governou o Brasil, nos 12 meses, a renda dos 10% mais pobres caiu 71%. A recessão provocada pelo próprio PT levou ‘a inflexão no movimento virtuoso de redução da pobreza, que havia começado com o Plano Real e se acentuado com os programas sociais da era Lula.

(Míriam Leitão – O Globo – 12-09-18)

 

 

Para vencer a razão

 

“O que está radicalizando essas próximas eleições não é o que dizem os candidatos ou o programa quase inexistente de seus partidos. O que está radicalizando o processo é o sentimento de uma talvez muito próxima inviabilidade do sistema e a desconfiança sobre o que poderá vir depois. É simplesmente a própria forma da democracia representativa que, por razões diversas, começa a fracassar no mundo inteiro. Não podemos deixar de perseguir a utopia democrática, de jeito nenhum. Mas precisamos imaginar novas formas de pensá-la e exercê-la.”

(Cacá Diegues – O Globo – 17-09-18)

 

 

O problema é o emprego

Um candidato encomendou uma mega-pesquisa qualitativa, dessas em que um grupo de pessoas se reúne para debater um assunto, em quatro capitais (Rio, São Paulo, Fortaleza e Porto Alegre). A pergunta foi: “Qual é o seu maior medo?”. Veja os resultados:

  1. Perder o emprego;
  2. Não ter dinheiro no fim do mês para pagar as contas;
  3. Ter um familiar doente;
  4. Assalto/Violência;
  5. Conflitos de rua em função da política;
  6. Volta da inflação.

(Ancelmo Gois – O Globo – 15-09-18)

 

 

Eleições 2018

 

ORIENTAÇÕES DA CADEIA

 

De sua cela, Lula determina estratégia de Haddad, dos locais a serem visitados até a postura em debates

(O Globo – 17-09-18)

 

 

 

 

 

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Ministro José Costa Cavalcanti

setembro 22, 2018

O diretor brasileiro da Itaipu Binacional teve carreira brilhante no exército, no Congresso, nos Ministérios do Interior, da Energia, na presidência da Eletrobrás, quase chegou a presidência da República!

Na quinta-feira, dia 20, Maria Helena, Lucia e este memorialista, recordamos nossa convivência com Costa Cavalcanti durante a epopeia que foi a construção da maior produtora de energia do planeta.

Maria Helena Lucia RN Ministro Jose Costa Cavalcanti

 

 

 

 

Encontro primaveril

setembro 18, 2018

Encontro primaveril RN Edna e VeraEncontro primaveril RN Edna e Vera 1Encontro primaveril Mia

A gata Mia, Priscila, o ancião memorialista e as irmãs Edna e Vera Carvalho, mais a jovem Letícia, sobrinha delas.

Uma tarde alegre, um papo gostoso, evocações mil (o que será do nosso Brasil?). Que venha a primavera!

Fotos by Letícia

 

 

 

 

 

O que dizem os jornais

setembro 16, 2018

        JORNAL DO BRASIL, sexta-feira, 14 de setembro de 2018.

Manchete: ELEIÇÕES 2018 – BOLSONARO NÃO PARTICIPARÁ MAIS DA CAMPANHA.

Subtítulo: Com prazo de recuperação imprevisível, candidato do PSL deve ficar fora até do 2º turno.

O GLOBO, domingo, 16 de setembro de 2018.

Manchete: ELEIÇÕES 2018 – POLÍTICOS PROFISSIONAIS ABOCANHAM 67% DAS VERBAS DO FUNDO ELEITORAL.

Subtítulo: Dinheiro foi destinado por siglas a candidatos que buscam reeleição ou já foram senadores e deputados.

 

PS: Para bom entendedor um pingo é letra.

 

 

 

 

DICA

setembro 16, 2018

Se você quer saber o que está acontecendo, leia o

Jornal do Brasil

dica jornal do brasil

 

COMO ME ENCONTRAR

setembro 13, 2018

            Rubens Nogueira

telefone: (21) 2245-2652

Facebook:

facebook.com/rubens.nogueira.129

Blog WordPress:

rubens1.wordpress.com

Blog “Antes que me esqueça”:

jornalcruzeiro.com.br/blogs

 

 

 

Edna Carvalho

setembro 13, 2018

Este 13 de setembro marca o aniversário dessa mulher de grande valor. Edna foi a primeira funcionária da Diretoria Geral da Itaipu Binacional, em Foz do Iguaçu. Contratada como secretária, a jovem professora, nascida no Parque Nacional, onde o pai trabalhava, tornou-se uma das principais colaboradoras na enorme tarefa de construir e produzir energia elétrica. A Itaipu Binacional, empreendimento que uniu ainda mais Brasil e Paraguai é, desde sempre, a usina hidrelétrica que detém o título de maior produtora de energia do planeta.

Edna fez uma carreira profissional invejável. Hoje, aposentada pela FIBRA – Fundação Itaipu Brasil, mora na Vila “B”, em Foz do Iguaçu, um modelo de comunidade, às margens do Rio Paraná. Ela simboliza a capacidade, a responsabilidade e a grandeza da mulher brasileira.

Feliz Aniversário!

 

 

Mário Xavier (última parte)

setembro 13, 2018

Mário Xavier lembranças familiares

Lembranças familiares

América, América

Essa característica de rapsodo Mário Xavier herdou da cultura da terra dos seus antepassados. Basta lembrarmos do cavaleiro da triste figura e do seu fiel escudeiro imortalizado no Don Quixote. Aliás, bem perto dele, sua mãe era uma imagem viva das damas de Allambra e Sevilha.

A señora Amparo, Amparito para os íntimos, era uma dama saída dos romances de capa e espada. Pequena de porte, vestida até aos pés, pescoço e ombros abrigados em xales coloridos, cabelos presos em elegantes coques, olhos brilhantes e curiosos, ela imperava em toda a casa, falava pouco, mas era atenta a tudo. Nos momentos de descontração e a rogo dos netos ela se punha a declamar longos e belos poemas, com uma entonação de Castela, pura e cristalina. Emocionava-se e nos deixava emocionados. Uma artista a esposa do velho Xavier.

No final do século 19 alguma coisa mexeu com espírito aventureiro dos habitantes da Aldea Nueva de Ebro e também de Calahorra, ambas pertencentes à Província de Logrôno, na Região de Rioja, norte da Espanha, na divisa com o País Basco.

Escrito assim parece um relatório. Mais do eu aventura desconfio que a Europa, devastada pela guerra de 1914/1918 influiu na decisão dos espanhóis e na de outros povos. As Américas eram terras novas, sonho de esperança e paz.

No mapa, Ebro parece perto de Pamplona, que me lembra Vicente Blasco Ibañez (1867/1928) o grande novelista, autor de “Sangue e Areia”, o impressionante romance que evoca as touradas, e que Hollywood levou à tela. Inesquecíveis as atuações de Rita Hayworth, Tyrone Powell, Anthony Quinn… E quem não se lembra do filme: “Assim brilha o Sol”, com o mesmo Tyrone Powell, Mel Ferrer, Errol Flinn e a maravilhosa Ava Gardner? Hemingway outra vez, narrando a festa de San Firmin. Mario Xavier esteve lá, várias vezes. Quando tem oportunidade e ouvintes ele conta com todos os detalhes o que é a lida na arena.

Os Gimenez emigraram. Alguns desembarcaram em Santos e se espalharam pelo Estado de S.Paulo, e pelo Paraná. Outros preferiram seguir até a Argentina. Foi o caso dos pais de Mario Xavier Gimenez. Deles ouviu as histórias que conta com graça e emoção. Por exemplo, aquela que mostra em sua crueza a caturrice da raça. O casal Basílio Gimenez, professava religiões diferentes. Ela, católica, apostólica, romana. Ele, admirador do protestantismo. Ocorria que ela ia à Igreja todos os dias quem sabe, como no poema de Garcia Lorca: “a lás cinco de la tarde”. E, provocativamente, insistia com o marido para acompanhá-la. Talvez, quem sabe, até para ouvir a invariável resposta: “Que voy a hacer lá. Me llamam com sineta, me hablan em latin…” Acrescentava, galante: “Eu posso amar-te como o Dante amou,/Seguir-te sempre como a luz ao raio,/Mas ir, contigo, à Igreja, Isso não vou,/Lá nessa é que eu não caio!” Como intelectual que era, conhecia o estro do português José Joaquim Cesário Verde. Quando havia procissão e passava pela sua porta, Basílio, sentava-se na soleira, com a cabeça coberta, lendo a Bíblia. Pode-se imaginar o desconforto da esposa que passava, coberta com o chalé preto e segurando o terço, toda circunspecta…

Pergunto: O nome Basílio não soa nobre? No Webster dictionary aparece como bispo de Cesaréia, na Palestina, nos anos 300 da era cristã. Devia ser nome comum no século 19, pois Eça de Queiroz publicou “O primo Basílio” em 1878. Daí que o Basilinho da Didi para as crianças da família, foi o legítimo primo Brasílio!

 

O Calor e o Frio

Estou em Maraú onde o azul é mais azul e aonde cheguei em 17-08-09, com Ana Nogueira, para visitar Regina e Marcio. Na verdade estou na praia dos algodões, das espumas brancas. Falando sério estou no sul da Bahia, na costa do dendê. Mas não saí de mim mesmo, do compromisso comigo assumido, de continuar a narrar a história dos Gimenez, de Piedade. Neste lugar de sonho a temperatura anual não excede 28 graus. Em maio quando estive em Piedade peguei quase zero grau. Esqueci-me de que estaria no sul e levei pouco abrigo para o frio.

Na tarde em que a cidade completava 85 anos, a festança foi ao ar livre. O vento gelado castigava o rosto, as mãos, o corpo inteiro. Minha intenção era ficar de quarta a sexta-feira, tempo suficiente para realizar as entrevistas com a irmã e a cunhada de Mário Xavier. Quando soube que suas netas iam dançar balé na festa de domingo, fiquei mais dois dias. Foi uma bela exibição. As meninas Giulia e Luiza são alunas aplicadas, graciosas e deram um show. O frio, que me perseguiu naquela semana lembrou-me outros invernos. Em Sorocaba, em Foz do Iguaçu, em Londres, em Roma, em Genebra, no país de Gales, em Bariloche, mas nenhum tão inesquecível quanto uma noite de julho, há muitos e muitos anos, em São Paulo. Eu estava na cidade a trabalho. Fora do Rio, pela manhã tive reuniões à tarde, participei de uma happy-hour no Bar Rosa Amarela, com colegas, deles me despedi e, noite fechada dirigi-me ao aeroporto de Congonhas, para voltar ao Rio. Sem bagagem, dinheiro curto, fui surpreendido pelo inesperado – o aeroporto fechado devido ao nevoeiro. Fazer o que? Voltei para o centro, meio de fogo, perdido em mil cogitações – nenhuma prática, que me levasse a uma sensata solução. As caixas eletrônicas eram facilidades futuras. Na avenida São João, sentei-me num banco da praça, aliás na praça Paissandu. Tiritava. Poucos transeuntes. Fui andando em direção à avenida Ipiranga. Encontrei um cinema poeira com sessões contínuas. O bilhete de entrada custava tostões. Estava exausto, enregelado. Dormi. Fui acordado lá pelas três da madrugada. Sonolento, pernas doloridas, vaguei pela paulicéia, desvairado. Às primeiras claridades do dia, embarquei num ônibus e fui para Congonhas. Embarquei na ponte aérea e não me lembro do que ocorreu depois. Esse episódio insólito invadiu-me a memória enquanto Mário Carlos – qual um Ayrton Senna – dirigia a mais de cem o potente bólido Hyundai, levando-me na carona para pegar o ônibus para São Paulo. Deixara as meninas com a professora de balé, após o espetáculo. Ia buscar um dos filhos em Sorocaba e voltaria a tempo de resgatar Giulia e Luiza – Um pai herói.

Por telefone e depois, pessoalmente, confirmei, de mim para comigo, a estranha sensação de reviver tempos passados, alegres, menos alegres, porém guardados com carinho e nostalgia no mais fundo do meu sofrido, mas valente coração.

Refiro-me ao reencontro com Mercedes, Mello e Didi. A primeira, irmã de Mário Xavier; o segundo, concunhado de Mário, casado com Neide, minha irmã; a terceira, viúva de Antonio, irmão de Mário Xavier. Em áureos tempos Mercedes fora a princesinha da família. Uma jovem espanholinha, loura, retraída, delicada de traços e de conduta, no meio de uma família machista. Desde mui jovem ajudava mamita Amparito na faina doméstica. E ainda bastante jovem casou-se com Walter Gomes e passou de princesa a rainha do lar, com uma penca de meninas e meninos para cuidar e educar. Mercedes (Nena) como a minha irmã para os íntimos é uma mulher sacudida, viúva e autônoma – a mater família de uma enorme família. No dia em que fui visitá-la dei de cara com a inscrição na fronstispício da senhorial residência:

 

Casa da Sogra

Amiga e gentil ela preparou uma paella “comme il faut” para me receber. Uma enorme travessa com todos, mas todos, os ingredientes do tradicional quitute valenciano.

Os filhos e filhas, como flechas, foram ao encontro de alvos mundo afora. Mercedes não ficou solitária. Já que ali é a “Casa da Sogra”, os rebentos e os rebentinhos de vez em quando enchem as casas e o entorno. Um dos filhos, o médico Marco Aurélio Ubirajara Garcia Gomes, ainda solteiro e trabalha em Sorocaba, está sempre agarrado à saia materna. A casa, ampla, bem fornida de móveis, muitos de época, abriga obras de arte, cristais, tapetes, e diversas fotos de antepassados.

Estar naquela chácara, acompanhar a preparação do almoço, ao som de uns goles de vinho, observar o tucano que se movimenta devagar pela casa, caminhar pelos espaços eternos, uma bela propriedade, com muitas árvores, galinhas e suas ninhadas, olhar o que restou da casinha de madeira onde as crianças brincavam, ouvir em retrospecto com o ouvido da imaginação a algazarra que faziam, foi tudo de bom. Além, é claro de testemunhar a emoção, o orgulho de Mercedes, ao recordar nomes e acontecimentos de seus antepassados.

 

Manoel Joaquim Soeiro C. Mello

Mello é português. Pelo nome, pela imagem física, pelo pensamento lógico, um típico cidadão lusitano. Impossível falar dele sem lembrar o que o Presidente Salazar dizia do risco de se viajar de avião. – “Como ter segurança em um veículo que voa pelo céu, mas cujas oficinas estão no solo?” É um homem do trabalho. Determinado, fiel, dedicado. Tem o traço característico da raça – a emotividade. Está sempre à beira das lágrimas. Conheceu minha irmã Neide no trabalho. Bem jovens, foram vendedores das Casas Pirani, móveis e aparelhos domésticos. Isso lá por 1960. Depois nas Casas Casoy. Sempre em São Paulo. Neide formou-se professora. Foi lecionar na região de Piedade. E lá deu-se a integração de Mello na família Gimenez, onde trabalhou décadas. Enviuvou, casou, e podemos encontrá-lo diariamente, no Centro Comercial, pasta na mão, ainda lutando pela sobrevivência.

Fui padrinho do seu casamento com minha irmã Neide. Em 2003, muitos anos depois, quando Neide faleceu enviei-lhe este bilhete:

“Estimado cunhado Mello:

            Foi a intuição, o acaso, ou o que seja, que me fez visitar a Neide um mês antes e fotografá-la, vou ampliar a foto e mandar-lhe. Não há consolo para a ausência física, mas a lembrança da esposa dedicada, da mãe amorosa e da irmã afetuosa, isso jamais será esquecido. Ela só deixou boas recordações.

            Um carinhoso abraço,

            Rubens

 

Quase irmã

Benedicta Machado Jimenez, mulher coragem, porte nobre, sábia, prudente como as heroínas bíblicas, nasceu em 18 de outubro de 1930, na mesma cidade onde nasci, dois anos antes dela.

Vim a conhecê-la pessoalmente quando teve início seu namoro com Antonio Jimenez. Ela, sua mãe, pessoas discretas, mas simpáticas e amáveis. Já mencionei a amizade que ela e Hilda cultivaram a vida toda. Em parceria elas contribuíram largamente para o êxito dos empreendimentos comerciais que Mário e Toninho capitanearam.

Após a decisão de se separarem, Didi, como é conhecida estreitou mais a colaboração com o marido. O casal teve dois filhos: Basílio e Laércio. Basílio saiu bem ao pai. Inteligente, trabalhador, determinado. Formou-se em engenharia. Simplesmente as áreas de atuação dos Jimenez com jota. Vivaz, enérgico, aventureiro, gostava de desafios. Apaixonou-se desde muito jovem pela aviação. Pelo prazer de voar. Imagino que sentia-se um pouco Ícaro, livre, dono do espaço. Foi proprietário de aeronaves pequenas e médias. Lembro-me que certa vez, ao perguntar por ele, soube que estava em Miami, onde fora buscar um avião, encomendado por ele. Voltou à Piedade pilotando seu brinquedo de adulto – um êmulo de Antoine de Saint-Exupéry, um príncipe dos ares, abrindo suas próprias rotas aéreas, a seu bel prazer. Nosso querido Basilinho ao dirigir um helicóptero, tal como o lendário Ícaro teve suas asas metálicas queimadas ao contato com a rede elétrica na pacata cidade de Tatuí.

Na minha idéia acho que é sempre o filho que deve sobreviver aos pais e não o contrário. Didi teve e tem a força que a Fé lhe dá para – ao perder o filho primogênito e o marido fiel – prosseguir na luta para manter os negócios da família. Laércio, o caçula ajuda como pode.

 

A mais difícil das artes

Ruy Castro lembra a dificuldade de se fazer a biografia de pessoa viva. Charles Morgan registrou no seu romance “Sparkenbroke” a frase de seu personagem principal: – “a autobiografia é a mais difícil das artes”. Tudo é difícil. Só o Amor constrói para a Eternidade. É o que me orienta nestas anotações. Antes de começar, li, em revista de turismo a frase: “não faça da sua biografia um relatório”. Estranhas palavras em anúncio de empresa de viagem. Mas lá estava e me deu a dica: fugir da estatística, do factual. Lembrar o que tem sido a passagem de Mário Xavier por este mundo de Deus, pela ótica da nostalgia, da amizade, do carinho, da luta insana que é viver e lutar, como ele, seu irmão, seus filhos e filhas, seus sobrinhos, nós, seus parentes e contraparentes, todos tocados pela Graça e impelidos pelo Dever. Daí que, ao ritmo que a disposição física e mental permitem, venho depositando em letra de forma os pensamentos, as lembranças, o que a retina e as oiças guardaram, de Mário Xavier, sempre alertado para a lição daquele espanhol notável, que se chamou José de Ortega Y Gasset: “eu, sou eu, e minha circunstância”.

Isto de escrever é um caso sério. Tenho aqui em frente aos meus olhos alguns livros, biografias e autobiografias de pessoas tão díspares, como Elizabeth Taylor, Charles Chaplin, mas também Hillary Clinton e Mao Tze Tung.

São volumes muito volumosos mesmo. Quinhentas, setecentas páginas. Alguns chegam a quase mil páginas. Não sei se teria coragem, audácia, para abalançar-me a tarefa tão pesada. Escrever estas poucas páginas já foi um esforço grande. Prazeroso, mas difícil. Consola-me ter lido há pouco uma entrevista de Ancelmo Góis ao Jornal da ABI (Associação Brasileira de Imprensa) são seis ou mais páginas. Mas o que retive foi a afirmação do famoso colunista de “O Globo”: “Escrever pouco é mais difícil do que escrever muito”.

 

O alfa e o ômega

Querido sobrinho Mario Carlos; querida sobrinha Patrícia. Vocês e seus filhos galantes me acolheram com carinho e me fizeram um bem enorme. Foi como viver de novo aqueles “tempos que não voltam mais” e que, no entanto, com emoção e tristemente alegre procurei recuperar. Mas, ao final destes apuntes uma dúvida assoma my espírito e ensombrece mys pensamientos: será que era isto mesmo que me pediram para fazer? Quem é o homem que procurei retratar com humildes e cediças palavras? Quem é Mário Xavier? São muitas as perguntas e a resposta é somente o eco que elas produzem. Uma rosa é uma rosa, é uma rosa divagava, Gertrude Stein. Penso que o próprio Mário Xavier ficará meio confuso e hesitará em se reconhecer nestes escritos. Pensará, imagino: “será? será? e se me perguntarem o que eu diria para os pósteros, o que restou de tudo, o que transmitir para meus netos e bisnetos?” Mistério, mistério! Mas, querido Mário: um pensamento maior me acode, me acalma e me consola: uma árvore se conhece pelos frutos que produz!

Assim que, ao meu concentrar no meu personagem, sem perder de vista o contexto em que Mário Xavier se movimenta, dos seus ancestrais aos seus descendentes, revelou-se-me a amplitude, a abrangência e, consequentemente, a impossibilidade, para minhas forças, de captá-lo no seu todo. Na busca mental, nos contatos pessoais, encontrei muito mais do que imaginava. É verdade: um só vivente resume o universo.

Rio de Janeiro, 13 de setembro de 2009.

Rubens Nogueira

 

Mário Xavier (terceira parte)

setembro 11, 2018

Mário Xavier lembranças familiares

Lembranças familiares

 

Piedade – capital da cebola

                                                                                               Êta rio Pirapora

                                                                                               Quem da sua água bebe

                                                                                               De Piedade não vai embora

 

Assim aconteceu com Amparo Torrecilla Berenguer, hoje nome de rua no Ciríaco de Cima. Assim também ocorreu com Hilda Nogueira Gimenez, que tornou-se nome de creche. A mesma experiência teve o poeta, ator, pintor, designer, escultor, artista plástico, acima de tudo boa praça, o eternamente entusiasta Paulo de Andrade. Está lá na orelha do livro: “Geografia e História de Piedade, da historiadora, professora Maria Moreni. Paulo encarregou-se de traduzir em belos desenhos a bico de pena, atos e fatos da história da cidade. No poema, que é longo, ele diz que, em Piedade:”…descobriu, sem fazer muita força poética, que o céu é bordado de estrelas, e as matas não poderiam deixar de ser mais belas…” Eu estava na praça Cel. João Rosa em uma tarde caliente de verão, o sol na cabeça, quando, sem dizer lá vai água, São Pedro abriu as torneiras e, lá do alto, o aguaceiro benfazejo formou uma cortina líquida sobre o morro muito verde, em frente. Foi lindo ver a chuva chegando ao centro urbanizado. Hoje o que era mata, é um bairro de muitas casas e ruas, que em Piedade chamam de Vila, a Vila Quintino.

A Piedade de outrora emerge do esconso da memória ao percorrer as páginas desse livro e de outros dois: “Historiografia Piedadense”, de Benedito Maciel de Oliveira Filho e “História de Piedade”, de Antonio Leite Netto, ambos de 1987. O já citado, de Moreni e Andrade é de 2002.

A urbe é cortada por rios e riachos, mas o principal é o rio Pirapora – (peixe que salta). A cidade está onde sempre esteve, entre as Serras de Paranapiacaba e a de São Francisco. Ao norte, Votorantim, ao sul, Tapiraí, a oeste, Pilar do Sul e a leste Ibiúna (antiga Unas. Os Nogueira saíram de lá e foram para Sorocaba, antes de 1930). O município, que mede uns 730 quilômetros quadrados, abriga uma população de cerca de 52 mil almas, das quais, sessenta por cento moram na zona rural. Ali na praça algumas placas esclarecem que Piedade tem altitude de 900 metros em relação ao nível do mar, fica sob o signo de Capricórnio, paralelo 23, que se tornou vila em 1857, relaciona os nomes do primeiro prefeito e dos membros da Câmara de Vereadores e, muito acertadamente lembra o que está no salmo 127: “Se o senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela”. A propósito, nesta quentíssima manhã de cinco de março de dois mil e nove, soldados e oficiais da Polícia Militar do Estado de São Paulo, homenageiam o novo comandante do destacamento local. Ele começou com um choque de ordem, proibindo motorista dirigir sem cinto de segurança, falar ao celular, crianças menores de doze anos no banco da frente…

A sessenta quilômetros de São Paulo, e trinta de Sorocaba, Piedade é um pouco cidade dormitório. A juventude, principalmente, movimenta-se para essas cidades para trabalhar e estudar.

Em um dos livros citados, encontráveis na moderna Biblioteca Pública, bem situada, em ambiente arejado e claro, aparece uma galeria de fotografias dos prefeitos. Alguns locais, outros oriundos de Sorocaba. Dois deles conheci pessoalmente: Cherobim Rosa e Laureano da Silva Balbi. O primeiro foi fundador do Sorocaba Clube e pai de vários filhos, entre os quais o Brigadeiro-do-Ar Cherobim Rosa Filho. Da moça me foge o primeiro nome, porém seu marido é o grande batalhador das causas públicas, o doutor Hélio Bicudo.

Para se entender o nosso país é necessário estudar a imigração. Alemães, italianos, espanhóis, suíços, poloneses, franceses, ingleses, irlandeses, árabes, e há um século, japoneses. Vinham “fazer a América”, a convite ou por conta e risco do espírito de aventura. Alguns se deram mal. Os suíços de Nova Friburgo por exemplo. Em vez de boas terras encontraram montanhas de granito. Alguns ficaram e fizeram o progresso da região. O reverendo Wesley Emmerich Werner da Igreja Presbiteriana de Curitiba, ele mesmo neto de emigrantes, traduziu o livro: “Terra! Terra” do suíço Georges Ducotterd onde se conta essa história. Verdadeiro conto do vigário. E isso aconteceu no reinado de Dom João VI, em 1818. Já no século 19, pela ação de Dom Pedro II os imigrantes que vieram para o sul: Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, se deram bem. A sorte ajudou a vontade de trabalhar e produzir, crescer e prosperar.

O título deste Capítulo tem origem na fase áurea da agricultura local. Além das matas repletas de jatobá, angelim, jacarandá, ipê e pinho que deram início à indústria de móveis, a partir de 1930, os espanhóis plantaram muita cebola, que abastecia o país e era exportada. Os heróis dessa epopeia, dezenas de famílias espanholas, figuram na página 87 do livro de Leite Netto. Os Gimenez estão lá.

 

A volta dos que foram

A História é dinâmica. As correntes migratórias obedecem ao pêndulo das condições políticas, econômicas e, por aí vai. O Brasil, que tanto se beneficiou com os estrangeiros que vieram “fazer a América”, nos séculos passados conheceu movimento inverso. Milhões de cidadãos desde meados do século 20 saíram do país em busca de melhores condições de vida. De Piedade, os filhos de emigrantes foram para o Japão. O efeito da globalização! Mas o pêndulo não para. Em sua edição de 6 de março de 2009, a “Folha de Piedade”, em editorial comenta:

“O levantamento do Posto de Atendimento ao Trabalhador (PAT) publicado na última semana mostrou os efeitos da crise econômica em Piedade e, também, deu a dica: o setor agrícola, até o momento, foi o menos atingido e apresenta-se como uma das alternativas mais viáveis para driblar a turbulência. Em contrapartida, do outro lado do mundo, os decasséguis – brasileiros que emigraram para o Japão em busca de melhores condições de trabalho – têm iniciado um movimento de volta ao Brasil devido às demissões em massa. Piedade, que abriga uma expressiva colônia, também tem seus representantes entre os que foram tentar a sorte na terra do sol nascente”.

A crise financeira de 2008 abalou o mundo e balançou as convicções dos que defendem o livre comércio, a liberdade mercadológica. Os BRICS (Brasil, Rússia, Índia e China) sofrem os efeitos perversos dessa hecatombe, mas serão mais fortes e poderosos quando a economia voltar à normalidade – é o que se espera.

 

Família globalizada

Globalização, o que é isso? Agora que a crise financeira domina o planeta e desafia o poder de gerenciamento dos líderes políticos e, por que poupá-los, põe por terra a empáfia dos economistas (jogadores de búzios diz Clóvis Rossi, da “Folha de São Paulo”, apraz-me refletir que, tendo origem em remota aldeia no norte da Espanha, os Gimenez correspondem muito bem, no que tange às relações humanas, à definição que consta no dicionário Houaiss: “globalização: reunião num todo; planetarização; processo mundial de internacionalização econômica com forte impacto sociocultural”.

Da terra de Miguel de Cervantes vieram primeiro para Santos alguns, outros para Curitiba, outros mais para Buenos Aires. O tempo passou. Houve casamentos. Deles os benditos frutos. Cresceram. Com asas os rebentos. Das delicadas penugens, penas fortes e coloridas. Cinco gerações pelo menos. A árvore genealógica, com muitos galhos é frondosa, colorida, com raízes fortes e saudáveis. O tronco – Mário Xavier – enlaçado com outra árvore – Nogueira. Daí a primogênita, Marilda, se casou com André, cujas raízes estão na Hungria; deles, Ricardo e Alan, que estudaram na Nova Zelândia; a segunda filha, Mariângela, que se casou com José Lázaro Andrade e morou em Londres, onde nasceu Marcos Felipe, primogênito, que tem o irmão Pedro e ambos conhecem boa parte do mundo; a febre das viagens de descobrimento contaminou até Cassiano Oliveira, filho da governanta Jacira, criado na família. Ele também passou longa temporada na Nova Zelândia. Por fim e definitivamente, o varão da família, Mário Carlos Gimenez Filho, casado com Patrícia Spada Gimenez. Ele morou em Paris algum tempo; ela em Lion, mais de um ano. Do conúbio, uma ninhada de anjos – Thiago, Bruno, Giulia e Luisa, todos em fase de treinamento para voar…

Do irmão Toninho Jimenez, casado com Benedicta Machado Jimenez os filhos Antonio Basílio Jimenez Filho (nome do bisavô) e Laércio Machado Jimenez, voava de verdade. Pilotava sua própria aeronave, entre Sorocaba e Miami, com a maior competência. Teve vida breve.

Laércio, tem um filho Eto, que voa em corridas de Kart, pelo mundo afora.

Mercedes, casada com Walter Gomes é a única irmã de Mário Xavier. Mãezona, gestou um naipe de lindas meninas Silvia Helena, Lúcia Helena e Maria Helena e dois guapos rapazes: Walter Reis Rafael Garcia Gomes e Marco Aurélio Ubirajara Garcia Gomes. Ela, do lar. Walter comerciante. Um homem de negócios com interesses intelectuais. Faleceu jovem. Porém, enquanto viveu foi um impertérrito defensor da pureza da nossa língua portuguesa. Tinha horror da onda de nomes estrangeiros em pessoas, edifícios, marcas comerciais e por aí ia. Não alcançou o apogeu da globalização via Internet, ou morreria apoplético.

Das núpcias de Mercedes e Walter, a família enriqueceu-se com os casamentos dos filhos. Uma delas Silvia Helena – foi encontrar a metade da laranja na velha Albion – o iraniano Aly Rayetparvar e desse encontro resultou um presente maravilhoso: Ana Maria Gomes Raietparvar, uma das crianças mais bonitas que já conheci.

Modestamente, de minha parte, direta ou indiretamente contribuí para o efeito globalização familiar. Casado com Maria Luiza, filha de pais portugueses. Embora separados, quando Ana Maria tinha onze anos e Márcio quatro, Vera Silvia dez e Regina Lúcia, oito, acompanhei a diáspora pessoal de cada um deles. Não tinha como ajudar financeiramente – jornalista ganha pouco! Mas a mãe que herdara bom dinheiro do pai, despachou os filhos para o exterior, menos Ana Maria, que só na maturidade emigrou.

Resumindo: Tenho netos americanos e ingleses e bisneto galês. Bem, alguns netos e uma bisneta nasceram em São Paulo e Rio de Janeiro. Beleza!

Conto essas coisas para chegar ao objetivo deste palavrório: revelar aos que lerem estas lembranças familiares o entranhado espírito de solidariedade, de genuína generosidade, dos Gimenez. E tive e tenho outras claras evidências do que afirmo.

Se me é permitido, direi que da parte dos Nogueira, o acolher ao necessitado minha irmã Hilda Nogueira Gimenez herdou de nossa mãe Hortência, e transmitiu aos filhos, a boa norma cristã que diz que a mão esquerda não precisa saber da doação feita com a mão direita. Eu, e meus parentes somos testemunhas, e toda a sociedade Piedadense sabe da índole participativa dos Gimenez e Jimenez, em prol dos menos aquinhoados.

 

Festa de arromba

Foi o seguinte: no começo de 1986, morava em Foz do Iguaçu há já cinco anos. Saíra do Rio após 33 anos de vida carioca. Sentia falta dos filhos, dos netos, de tudo quanto sonhara ao deixar Sorocaba em 1948. Aconteceu que estava em São Paulo, encontrei-me com minha primogênita Ana Maria. Ela festejava o aniversário do meu neto Ricardo. Da conversa surgiu a idéia de reunir a família – toda a família – no Natal daquele ano. Mas como? Onde? Com que dinheiro? Quando souberam do plano, Hilda e Mário ofereceram a casa – deles e da filha Marilda (tinha um sítio em Piedade). Mas fizeram muito mais, muito mais mesmo! Da Inglaterra vieram Regina, Jim e Jéssica e Simon; dos States, Vera, Tom e Gabriela, Marcelo e Maria Helena. De São Paulo, Marcio e Anita e Amaraji, Ana, Antonio, Ricardo, Daniel e Luciano; da Argentina, Maria Luiza e Alberto Alba; de Foz do Iguaçu, eu e Ana Médici. Só faltou Dona Elza! Dias de alegria, com todos os Gimenez e Jimenez, confraternização incrível, tudo regado a boa bebida, ótima comida e muito AMOR. O dado concreto é que ali estavam: brasileiros, espanhóis, portugueses, argentinos, americanos, iranianos, ingleses, todos da mesma família! É ou não é o retrato da globalização? No total, umas quarenta pessoas…

 

O contador de histórias

Uma interessante experiência será acompanhar Mário Xavier munido de um gravador. Ele tem o dom de um contador de história, como um Aedo, sem o acompanhamento da lira, mas com voz firme e sonora, um misto de espanhol com sotaque do caipira paulista. E como tem repertório! Ouvi-lo é um prazer que não se esquece. As histórias vão de lembranças da infância, relatos que ouviu do avô e dos pais, às que viveu nas andanças caminhoneiras por este vasto país. E as narrativas, entremeadas de expressões que marcam os episódios como um ferrete.

No começo de sua vida, em Santos, o pai, desempregado, preocupava o tio, que abrigava a família. A primeira oportunidade de ganhar algum dinheiro surgiu de modo peculiar, mas não no sentido de pecúlio.

Uns espanhóis amigos do tio fabricavam sebo para fazer sabão. Não dominavam a técnica e a matéria prima apresentava-se escura, sem muita aceitação no mercado. Aí entrou a criatividade do pai, o velho Xavier. Em pouco tempo acertou a fórmula e os então patrões passaram a faturar bem. Mas exploravam, literalmente, o conterrâneo humilde. – “Oi Xavier, como está la dispensa em su casa?” – A expressão facial do pobre Xavier dizia tudo. – “Anda ombre, acá tienes algunos panes”. Coisas assim: pão, um pouco de batata, arroz, café – dinheiro que é bom, la plata, l´argent, necas de pitibiriba.

Quando soube, o tio virou fera. Peitou os espanhóis desalmados e proibiu o Xavier de prestar os excelentes serviços a troco de comida, como um escravo branco.

Depois dessa frustrante experiência os Gimenez moraram no Morumbi, onde havia lavouras. Estranhou? Duvida? É isso mesmo. O Morumbi, do estádio do São Paulo Futebol Clube, do Shopping, do Hospital Alberto Einstein, etc, etc, era região essencialmente agrícola. Os Gimenez ali suaram a camisa plantando e colhendo e transportando para o Ceasa da época. Mais tarde a dona Lucy Montoro surpreendeu a sociedade paulistana, ao iniciar, com as próprias mãos, uma horta no palácio Bandeirantes, sede do governo do Estado de São Paulo (FSP – 22-03-09). Terra fértil a do Morumbi!

Coincidência (dizem que não existe) foi o marido de Mariângela ter exercido a profissão de médico e de Marilda ter sido enfermeira do Hospital Israelita Albert Einstein e lá ter conhecido seu marido André Molnar. E foi no Morumbi que José Lázaro e Mariângela criaram seus filhos!

O velho Xavier gostava de veículos motores, comprava e vendia carros, fez economias. E aportaram em Piedade lá por 1925, quando a luta da família, para sobreviver deslanchou, heroica e cheia de peripécias.

  • – continua –

A tristeza continua

setembro 11, 2018

Foi uma 2ª feira muito triste. Agora, a 3ª feira começa mal. Sou sorocabano de nascimento, carioca e paranaense de coração. Morei 10 anos em Foz do Iguaçu e 15 anos em Curitiba. A terra das araucárias foi até 1715, a quinta província. Fazia parte de Sorocaba. A saga do tropeirismo é a melhor referência para essas épocas épicas. Quem melhor conta essa história? Érico Veríssimo em “O tempo e o vento”.

Duas famílias conquistaram minha admiração: a que fundou o Banco Bamerindus e o governador José Richa. Conheci, pessoalmente, os homens e mulheres desses clãs, li os livros sobre eles, notadamente a biografia do fundador do Bamerindus, escrita pelo meu grande e saudoso amigo o irmão e advogado Fernandino Caldeira de Andrada.

A tristeza continua!